domingo, 17 de outubro de 2010

"Moda não é só uma bichinha desenhando, enlouquecida... um estilista, ou sei lá o quê. Moda não é arte; é indústria acima de tudo, é business, é negócio." A afirmação do estilista gaúcho Daniel Lion mostra que a cara da moda do Rio Grande do Sul no novo século é outra. Esqueça o glamour, dondocas se acotovelando em desfiles e modelos dentro do padrão de beleza. Em tempos de pós-modernismo, quando se individualizar é uma questão essencial, novos criadores jogam no corpo de modelos cheias de atitude suas idéias, seus sofrimentos e suas percepções do mundo, buscando o único no meio de um mundo onde peças em série comandam o mercado.

Mas ter estilo de vanguarda, como André Courrèges, Paco Rabanne e Emilio Pucci, não basta. É preciso conhecer o público que quer o diferente. A moda está virando cada vez mais uma imagem, um conceito, e a roupa propriamente dita é um artigo descartável, não apenas pela pouca durabilidade, mas também pelas constantes mudanças de tendências. Nesse contexto, investir trabalho em uma única peça não é mais vantajoso: o melhor é investir em uma imagem de marca ou de estilo. A primeira Maison da moda a usar isso foi a Channel, com Karl Lagerfeld; depois, Tom Ford na Yves-Saint-Laurent. Mas tanto a moda como a busca pela novidade surgiram como uma necessidade do homem de criar, necessidade que foi incentivada pelo capitalismo e sua ideologia, mas que não matou a imaginação dos estilistas.

Vender sim, mas com estilo

Nem Galliano, o mestre da moda conceitual, nem Tom Ford, o homem que colocou o marketing na moda sem qualquer pudor: os novos estilistas gaúchos querem que a moda exerça sua função básica que é vestir os corpos. Eles querem vender sim, mas o diferente. O que importa é atitude e estilo. Os novos estilistas não procuram mais a fama pela fama, querem um lugar ao sol para se expressar. Para isso, procuram desenvolver a criatividade. Uma das formas encontradas para buscar esse lugar no mundo da moda, são os cursos superiores de Moda espalhados pelo Brasil. No Rio Grande do Sul, a Universidade de Caxias do Sul foi a primeira a oferecer o curso, que já completa dez anos.


Cristiane Taufer e detalhe do seu trabalho de final de curso
Cristiane Taufer, 21 anos, está formada no curso de Tecnologia em Moda e Estilo da UCS há dois. Como a maioria dos novos estilistas, ela pretende ter uma marca própria, revolucionária, mas sem abusar muito das noções de estética do público. "Uma loja com design arrojado pode fazer até as pessoas terem medo de entrar", declara. Em seu trabalho de conclusão do curso, ela buscou anular as diferenças homem-mulher. Na sua futura coleção, ela pretende investir em recortes, sem deixar de lado a silhueta brasileira. Cristiane não procura com sua moda alcançar essa ou aquela tribo: "O mais alternativo é criar uma roupa que a pessoa consiga achar sua sintonia com ela, independente do estilo, sem estereótipos", e completa: "Os próprios burocratas da moda como John Galliano e Christian Dior ousam em suas coleções com o estilo streetwear; está tudo muito padronizado e o mercado pede coisas diferentes".


detalhe do trabalho de final de curso de Cristiane Taufer
Também formada pela UCS, Fergs Heinzelmann queria Publicidade, mas foi seduzida pela moda e a busca pelo belo. A estilista pensa que não adianta criar uma moda voltada para o comercial hoje em dia, que não atingirá o público. Fergs também considera que mesmo comercial, a moda não deixa de ser autoral, sempre é criação: "Nos trabalhos que eu faço, por exemplo, sempre tem alguma coisa de lúdico". Ela também pretende lançar uma marca própria: "A minha etiqueta seria roupa de adulto com cara de criança; roupas com uma certa ironia".



Anne Anicet é destaque nacional. Foi a única gaúcha selecionada em 2000 para participar da Fenit, I Prêmio de moda do Brasília Shopping e ficou entre os dez finalistas. Em março, ela foi convidada para participar do Salão Internacional da Moda. Começou a desenhar roupas pela falta de mercado de trabalho na área de artes. A relação de arte e moda para ela é a questão do processo criativo: "Moda não é simplesmente passar as tendências para o papel; é uma pesquisa, é uma criação tipicamente brasileira em que eu acredito". Anne aposta na sua criação e pesquisa para se diferenciar: "Acho que já tem bastante roupa básica de ótima qualidade e preço. O que é importante, mas faltam no mercado, são roupas diferenciadas, com um toque mais pessoal, que faça a pessoa se sentir não-massificada".

Para Anne, seu destaque na moda aconteceu exatamente por trabalhar com coisas diferentes. A maior parte das pessoas, segundo ela, não aceita a nova moda, mas acha que é pela criação que se cresce no mundo da moda de hoje. A estilista já abriu sua própria empresa e etiqueta

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